«Agradece a escuridão do teu dia, pois é nela que encontrarás a luz de que necessitas para viver.»

Reaprisionar-me

Prendi-me a ti sem sequer reparar
Penetraste nos sonhos misteriosos
Invadiste de mistérios saudosos
Meu coração sem o quereres largar

Tentei um dia, por acaso me soltar
Seguiram-se vários dias assombrosos
De mágoa e pensamentos tenebrosos
Com os quais eu não conseguia lidar

Mas continuar era má opção
Preferia a tristeza oculta nos olhos
À magoa que eu provoquei, infecção

Matei-me em luta contra o coração
Escondendo desejos nos entrefolhos
Voltando a eles pedindo perdão

Ser poeta

Ser poeta, que complicada vida

Dar luz a um mundo nas trevas da mente

Mascar palavras num sonho indolente

De uma alta missão que foi concedida


O lutar numa batalha perdida

A vontade de criar negligente

Um engenho, uma extravagância fluente

Marcas de uma história de amor proibida


Ele na vida nunca teve sorte

Nasceu meticuloso e sofredor

P’ra velejar nas marés da desdita


Correndo nos limites do Amor e da Morte

Incauto, abraça a vida sem pudor

Lutando pela verdade infinita


Vazio

No céu não há estrelas
Um belo fundo negro apenas
Tal como o meu coração
E d’iguais almas de luto terrenas
Que partilham da mesma escuridão
Numa procura não metódica
Procura fúnebre e melancólica

Procurando-te

Vagueio descalça nas ruas da calçada
Procurando-te na luz das estrelas
Que teimam em não dar anuncio delas
Procuro-te numa brisa parada

Procuro-te na música calada
Nas aromatizações dessas celas
Pergunto à lua porque não te revelas
Para tornar a minha noite encantada

Procuro-te na música calada
Nas aromatizações dessas celas
Pergunto à lua porque não te revelas
Para tornar a minha noite encantada

Aguardei, anos, nunca me deste sinal
Choro um sonho de amor que não esqueci
Soluçando, caindo no lamaçal



Memórias de um futuro

Vivo de memórias, receio o futuro
O passado dá o que o futuro nega
Sonhos me rouba, memórias me entrega
Olho-o de frente e só vejo escuro

Salve-se o mundo que eu já não me curo
Apenas o passado os sonhos rega
Na hora da colheita, o futuro os pega
Distante passado, meu único furo

A fortuna tornara-se intocável
Uma muralha ela guardava
O desejo por ela incontrolável

A angústia constante era inquebrável
Por mais que lutasse sempre voltava
Chuva e tempestade era destinável

Olhar de neblina

Belo olhar, desleal pressentimento
Harmónica gloriosa nébula
Dolorosa miragem me articula
Alegoria do descontentamento

À minha dor acrescentou-se fermento
Eclipse sombrio em mim se acumula
Afectuosa dor que Eros anula
Vem a saudade; Amor leva-lo o vento

Falsa Verdade – minha realidade
Mesmo no riso sobrevive dor
Cravo pungido na felicidade

Hipocondria da sua natividade
Ele fez de ti meu adorno esplendor
Pressentimento sem veracidade

Encurraláda no coração

Não sei o que pensar, o que desejar

Quero que os meus versos sejam de luz

Quero um soneto que chora e seduz

Palavras que de frio fazem transpirar


Quero minha vida sempre cantar

Alegremente levar minha cruz

Mandar no Fado que à dor me conduz

Que amargamente não me deixa amar


Me rendo ao Amor e à mágoa escondida

À sua nostalgia vitoriosa e terna

Com a virtude de ser a escolhida


Alvejada por Eros e ferida

Acreditando num amor eterno

Como sarar uma alma dolorida?



Amor soís...

Amor sois frequente mutilar

Que nos contenta e corrói-nos pela alma

Conforta e delicadamente espalma

É sofrer para ao outro agradar


É sorrir quando apetece chorar

É constante inquietação doce e calma

Uma cruz que deixa sempre algum trauma

É preparar-se para o degolar


É tornar o Inferno no Paraíso

Saber transformar o longe no perto

É tentar ser moral, sem nenhum siso


São lágrimas ardentes num sorriso

Que deixa o homem num estado incerto

Quanto mais se foge maior enfatizo


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